TIJOLOBLOG
 


Garagem pré-punk americana

Com um rock cru e pesado a banda norte-americana The Sonics influenciou profundamente o punk

 

Falávamos esses dias do Open Mind, banda inglesa que fundia rock de garagem com psicodelia.  Do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, outro grupo desenvolveu um trabalho muito interessante durante os anos 60 na seara garagista: The Sonics.

A banda surgiu na cidade de Tacoma, em Washington, em 1961. Inicialmente era um conjunto de música instrumental. Em 1964, estabeleceu-se a formação clássica do grupo com Gerry Roslie (vocais, órgão e piano), os irmãos Andy (baixo) e Larry Parypa (guitarra), Rob Lind (sax, gaita e vocais) e Bob Bennett (bateria).

Em 1965, assinaram com a Etiquette Records e lançaram o disco de estréia, Here are the Sonics. O trabalho soava bastante pesado para a época, com um rock cru e básico inspirado nos velhos blues. Reforçava essa atmosfera o processo pelo qual o LP foi registrado, com um gravador de duas faixas e apenas um microfone para pegar o som de toda a bateria. A energia do grupo compensou a carência técnica num estilo que serviu de forte referência para o punk rock, para o psychobilly, o grumge e outros gêneros.

Chamam a atenção nesse primeiro disco, profeticamente gravado em Seattle, canções com letras inusitadas como Psycho, The Witch, sobre uma bela feiticeira de cabelos longos e negros que dirigia um carro também negro, e Strychnine, esta última, regravada pelos Cramps, falava de um viciado no veneno estriquinina!!!

 

Além dessas músicas virulentas, o primeiro LP dos Sonics destacava covers de blues e rock’n’roll como Roll Over Beethoven (Chuck Berry), Good Golly Miss Molly (Little Richard), Night Time is the Right Time (Ray Charles) e Money (That’s What I Want) (Barrett Strong).

Boom, próximo álbum, foi gravado com a banda tentando reproduzir o clima de uma performance ao vivo. No final de 1966, os Sonics assinaram contrato com a gravadora Jerden. Por este selo, em 1967, lançaram Introducing The Sonics.

Grupos como Cramps e Mudhoney declaram influência dos Sonics

 

A partir da era Jerden, o som da banda passou por profundas transformações, com a incorporação de metais, sopros e influências psicodélicas. O período também marcou a desagregação da formação clássica do grupo. O saxofonista Rob Lind, por exemplo, foi combater como piloto no Vietnam.

Os fãs da fase mais pesada do grupo não costumam a gostar do que o Sonics lançou no período Jerden. Particularmente, acho que há músicas legais como Lost Love, num estilo meio The Who, Anyway the Wind Blows, cover de Frank Zappa and the Mothers of Invention e Once Again, uma melancólica balada psicodélica.

Em 1969, a banda acabou. Em 1972, a formação clássica voltou para um show em Seattle, que virou o disco Live Fanz Only. No ano passado, Gerry Roslie, Larry Parypa e Rob Lind reativaram o grupo para alguns shows e, em 2008, gravaram algumas faixas para o programa BBC Radio 2. Os Sonics ainda estão por aí, para alegria de quem curte aquelas porradas gravadas há mais de 40 anos. Bem que eles podiam uma hora dar uma esticadinha para a América do Sul e aparecer aqui no Brasil.

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 21h43
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MÚSICA

Peso garagista-psicodélico

Imagens: reprodução

O The Open Mind deixou sua marca no rock psicodélico britânico

A banda britânica The Open Mind gravou apenas um elepê homônimo, em 1969, mas é certamente uma das melhores do rock, criadora de uma poderosa mistura de rock de garagem com psicodelia. O grupo é daqueles que, infelizmente, até hoje permanece pouco conhecido e seu belo álbum resta como deleite para poucos.

O grupo surgiu em Putney, na Inglaterra, lá pelo meio dos anos 60. Inicialmente se chamavam The Drag Set e chegaram a gravar um compacto com esse título. Em 1967, mudaram o nome para o sugestivo The Open Mind, que em português significa “a cabeça aberta”. Aberta todos sabem a quê (rs).

O Open Mind era formado por Mike Brancaccio (guitarras e vocais), Timothy du Feu (baixo), Phil Fox (bateria) e Terry Schindler (guitarra). Jon Anderson, futuro vocalista do Yes, cantou por um breve período na banda, mas logo deixou o projeto para se deixar ao grupo de rock progressivo com o qual se tornou célebre na década de 70.

Em 69, o quarteto inglês registrou o primeiro e único álbum. Uma das melhores canções do disco, na minha opinião e a primeira que escutei há muitos anos em um programa de rádio, é Magic Potion, uma música pesada em que os caras capricham na distorção. A letra faz referência a uma trip lisérgica e o som lembra um monte de artistas que vieram depois como Black Sabbath, nos anos 70, e Sonic Youth, nos 80. Os versos da canção dizem: “Take a drink from my magic potion, soon you’re gonna really feel fine” (tome um gole da minha poção mágica e logo você vai se sentir bem de verdade).

 

Em meio ao peso garagista e às referências psicodélicas do disco, o Open Mind também primou pelas melodias e se valeu do piano em profusão. O disco é bom da primeira até a última faixa, porém cito como destaque Thor, The Thunder God, inspirada no desenho da Marvel sobre o deus nórdico, Dear Louise, Soul and my Will e Falling Again.

O Open Mind seguiu carreira até 1973. Quando acabou, Brancaccio, du Feu e Schindler formaram o Armada, influenciado pelo jazz. O novo grupo não durou muito e nem lançou disco.

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 18h39
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CINEMA

 

Nos tempos de ouro das séries

 

Imagens: reprodução

Buster Crabbe, ao centro, como o herói espacial Flash Gordon

 

O mocinho luta com o bandido perto de um precipício. Os dois acabam caindo e mergulhando rumo à morte. A tela escurece e aparece a mensagem anunciando o episódio seguinte, na próxima semana, “neste mesmo cinema”.

Esse era o formato das famosas séries que fizeram sucesso durante as décadas de 30 e 40. Embora para as audiências modernas série seja sinônimo de TV, esse tipo de filme apareceu primeiro no cinema e só nos anos 50 mudou-se para a televisão.

Com uma média de 15 episódios, com tempo variando entre 15 e 20 minutos, boa parte das séries se inspiravam em heróis de histórias em quadrinhos, como Flash Gordon, Mandrake e Dick Tracy. Em geral, traziam um enredo para a temporada, focado no conflito do herói com o vilão ou alguma organização criminosa.

Não se deve confundir essas séries, que possuíam um cronograma de argumento pré-estabelecido, com produções como Tarzan, Sherlock Holmes e Charlie Chan, em que vários filmes independentes foram realizados ao longo dos anos.

Para dar suspense, prender a atenção do público e fazer com que as pessoas voltassem ao cinema na próxima semana, perto do fim do capítulo, o herói era colocado em alguma situação de perigo, com desfecho anunciado para o episódio seguinte. No início do próximo filme, letreiros resumiam o capítulo anterior e eram exibidas fotos dos personagens para relembrar o ocorrido ou informar quem estivesse assistindo pela primeira vez.

A exemplo do Tarzan Johnny Weissmuller, o norte-americano Buster Crabbe também se destacou nos esportes como medalhista olímpico de natação e protagonizou o Rei das Selvas. No entanto, foi como Flash Gordon que Crabbe se imortalizou no cinema, encarnando o herói futurista criado por Alex Raymond em 1934.

Buster interpretou Flash pela primeira vez em 1936, na série Flash Gordon no Planeta Mongo, em que se confronta com seu arquiinimigo Ming, o Impiedoso. O loiro ainda viveu Gordon em duas séries, uma em 1938 e outra em 1940. Sete décadas depois, essas películas viraram Cult pela mistura de elementos da ficção científica com visuais medievais e do Império Romano.

Para muitos pode parecer ridículo ver naves espaciais soltando fogo e pistolas de raios ou monstros toscos. Porém, essa estética influenciou por décadas a ficção científica no cinema e na TV. O recente Captain Sky, de Kerry Conran e estrelado por Jude Law, homenageia velhos filmes como Flash Gordon ao reproduzir um visual vintage de ficção científica, como se a produção tivesse sido rodada com recursos dos anos 30. Interessante, não?

Em 1937, foi a vez de Ralph Byrd dar vida a outro herói das HQ, o agente federal Dick Tracy, criação de Chester Gould. Na série, Dick, com a ajuda de um grupo de amigos do FBI, enfrenta o terrível vilão Manco, chefe de uma organização criminosa batizada de Aranha.

 

Ralph Byrd conquistou o público como o agente Dick Tracy

 

O Manco se vale de diversas engenhocas para atingir seus planos, como uma nave em forma de asa. O problema é que o vilão sempre esbarra em Tracy. Para conseguir seus objetivos, o bandido ainda faz uma lavagem cerebral em Gordon Tracy, irmão de Dick. Gordon trabalha para o Manco.

Byrd continou atuando como Dick Tracy nos anos 40. Chegou a ser afastado dos filmes, porém retornou ao papel por exigência dos fãs. Morreu em 1952, aos 43 anos.

No ano de 1939, mais um personagem famoso dos quadrinhos ganhou versão cinematográfica em apenas uma temporada de série com o ator Warren Hull. Na seqüência de filmes, o mágico Mandrake utiliza seus truques, sua astúcia e corriqueiramente seus punhos para combater o vilão Vespa e seus capangas. O Vespa é outro bandido a se valer de recursos futuristas para a época como videofones. Em tempos de webcams nunca é demais lembrar que até um dia desses videofone era fantasia pura.

Warren Hull no papel de Mandrake

Séries de Flash Gordon, Dick Tracy e Mandrake estão disponíveis em DVD no Brasil. Valem como uma boa opção de lazer para manhãs, tardes e noites ociosas e chuvosas como estas de fim de ano. Bom divertimento!

 



 Escrito por Marcelinho às 17h57
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MUNDO

Dá-le, Obama! Dá-le, Hamilton!

Tudo bem que essa afirmação vem sendo repetida exaustivamente nas últimas horas, desde que se confirmou a vitória do democrata Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, mas nunca é demais falar que se trata de um fato histórico, um dos mais importantes dos últimos tempos na política internacional.

Ainda que o candidato eleito em termos práticos não significasse uma mudança estrutural da política norte-americana, sua vitória já valeria pelo significado da presença de um negro ocupar a presidência dos Estados Unidos, país mais poderoso do mundo e com um enorme histórico de racismo. Os wasps, os seguidores da terrível organização racista Kun Klux Khan, neonazistas e tantos outros vão ter que engolir essa muito bem engolida.

É triste lembrar, porém até cerca de 40 anos – pouco mais que a minha idade e menos que os 47 de Obama – nos Estados Unidos havia fortes sinais da segregação nos lugares nos ônibus, nos bebedouros, nos banheiros e nos restaurantes destinados especialmente às pessoas de cor. Quem já escutou depoimentos de negros que foram grandes nomes do blues e do jazz certamente se deparou com relatos tristes e revoltantes sobre o poder do preconceito na terra do Tio Sam. O presidente americano eleito significa um tapa na cara desse passado.

No entanto, Obama vai além do simbolismo de um negro na presidência dos Estados Unidos. Caso suas promessas se cumpram, teremos um horizonte diferente na política internacional, com mais negociação e tolerância e menos truculência e guerras. Assim esperamos. Que Barack Obama tenha sucesso com esse direcionamento. Será bom para o seu país e para o resto do mundo.

Falando de Fórmula 1, por mais decepcionado que tenha ficado com o vice-campeonato de Felipe Massa, não deixaria de destacar os méritos do inglês Lewis Hamilton como piloto ao ser campeão da modalidade automobilística em 2008. Massa teve garra até o fim e se afirmou como piloto importante. Perdeu o campeonato por um ponto. Torcemos por ele no ano que vem.

Não bastassem suas aptidões, Hamilton tornou-se o primeiro piloto negro a conquistar um título em um terreno dominado pelos brancos europeus e também com campeonatos vencidos por alguns latino-americanos brancos (Fangio, Sena, Piquet, Fittipaldi). 

Hamilton e Obama dão sinais de que o mundo passa por transformações e que velhos paradigmas começam a cair. Esperamos mais mudanças e que tempos melhores venham adiante.  

 

 



 Escrito por Marcelinho às 18h32
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MÚSICA

 

Punk pra gótico nenhum pôr defeito

 

Capa do primeiro álbum da banda californiana T.S.O.L, gravado em 1981

 

No som, uma música raivosa. Nas letras, temas inspirados em filmes de horror. Esses eram elementos da banda punk norte-americana T.S.O.L., uma das mais importantes do gênero hardcore. O T.S.O.L. tem pelo menos um disco nominável às listas de clássicos do rock, o álbum Dance With Me, de 1981. T.S.O.L. é a sigla para True Sounds of Liberty (em português, Verdadeiros Sons da Liberdade). O grupo surgiu na cidade de Huntington Beach em 1978.

Assim como nos anos 60 a Califórnia tornou-se a Meca de bandas psicodélicas, no final da década de 70 o estado americano virou um celeiro para grupos que praticavam um som furioso, rápido e pesado, ainda mais agressivo que o punk inglês. O novo estilo recebeu a denominação de hardcore (casca grossa, em português) e agregou bandas como os Dead Kennedys, o Agent Orange e o T.S.O.L.

O T.S.O.L. tinha em sua formação original Jack Grisham (vocais), Ron Emory (guitarra), Mike Roche (baixo) e Todd Barnes (bateria). Em 81, o grupo lançou seu primeiro registro, um EP homônimo, no qual estavam as porradas Abolish Government, Superficial Love e World War III.

Ainda em 81, o quarteto gravou Dance With Me, álbum de estréia. O som do disco foi chamado de punk gótico pela combinação do hardcore com letras inspiradas na estética de horror, o que os aproximava de algum modo dos Misfits, conjunto do alucinado vocalista Glenn Danzig.

O disco abre com a acelerada Sounds of Laughter e tem ainda entre os destaques Code Blue, canção que fala sobre necrofilia, The Triangle, Die for Me e Dance With Me. Pra mim a melhor música do álbum é Silent Scream, uma balada gótica que traz nas letras referências a ícones do imaginário do terror como Drácula e Frankenstein.

O T.S.O.L. dos primeiros tempos era uma banda com uma música básica e eficiente, com o baixo e a bateria bem marcados, riffs de guitarras crus e pesados e vocais escrachados.  Após Dance With Me a banda incorporou o tecladista Greg Kuehnc e lançou o EP Weathered Statues e o álbum Beneath the Shadows. Depois disso, sofreu sua primeira ruptura, em 1983.

Naquele ano, Kuehnc, Barnes e Grisham deixaram o grupo e foram substituídos pelo cantor e guitarrista Joe Wood e pelo baterista Mitch Dean. A partir daí, o som do T.S.O.L. começou a mudar radicalmente.

O álbum Change Today?, de 1984, marcou a estréia da nova formação e apontou um T.S.O.L. fora das raízes hardcore e mais próximo do pós-punk inglês. Outra característica dessa sonoridade eram os vocais de Joe Wood, nitidamente influenciados por Jim Morrison. Change Today? é um disco legal que traz boas canções como a pesada It’s Gray e Red Shadows, essa última a mais célebre da fase Wood & Dean.

O álbum Revenge, de 1986, ainda merece bons créditos e revelou um T.S.O.L influenciado por grupos como o U2 e com ecos pós-punks. A melhor música desse álbum é Colors (Take Me Away).

Hit and Run, de 1987, anunciou a decadência. Com uma capa com os caras fotografados com aqueles cabelos ridículos à Motley Crue, a banda enveredou por um metal farofa de fazer inveja a qualquer Poison da vida. É irritante ouvir as gravações ao vivo dessa fase com Joe Wood gritando no estilo desses cantores de hair metal. Deprimente, se lembrarmos da origem punks do grupo.

O mais esdrúxulo foi que os integrantes originais Ron Emory e Mike Roche deixaram a banda, que manteve o nome. Emory e Roche cederam os direitos para Joe Wood usar o nome T.S.O.L. sem a presença de nenhum componente da formação original.

Nos anos 90, os membros originais tentaram retornar usando o nome T.S.O.L, porém foram proibidos e acabaram se denominando The Original T.S.O.L. Joe Wood apareceu para uma turnê aqui no Brasil, em 2001, junto com o Agent Orange e utilizando o nome T.S.O.L. Lembro de ter visto o show aqui em Brasília. O Agent Orange foi legal, mas o T.S.O.L. só conseguiu se impor mesmo quando levou alguma música da fase Change Today?/Revenge.

Os anos se passaram. Todd Barnes morreu vítima dos excessos de anos de abuso de álcool e drogas. Seus companheiros ainda estão por aí com a velha bandeira do T.S.O.L. dos bons e velhos tempos do punk californiando. Vale citar que a música do grupo influenciou muita gente, como as bandas de thrash metal Slayer e Metallica, nos anos 80. O Slayer, a propósito, fez  uma cover de Abolish Government.

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 20h34
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VIAGEM

Bodes, Vitalino e a Feira de Caruaru

 

 

Obra de Mestre Vitalino, célebre artesão de Caruaru (PE)

 

 

Na semana passada tive a oportunidade de conhecer a cidade pernambucana de Caruaru, famosa pela feira da música de Luiz Gonzaga e pelo São João que dizem ser o maior do mundo. Há controvérsias, segundo os paraibanos, que atribuem o mérito de Meca dos festejos à sua Campina Grande.

 

Uma cidade de interior que vem crescendo e com um comércio forte, principalmente nas confecções, Caruaru tem como atrativos aos turistas fora do período de festas juninas o Museu do Barro, o Alto do Moura e a gigantesca feira.

 

Em rápida passagem pela Feira de Caruaru na sexta-feira passada (24), conversei com uma figura genial chamada José Amaro, conhecido como Zezinho. Ele e o irmão montaram a Barraca da Solda Elétrica São Caetano. À primeira vista, parece um ferro-velho. De certa forma, é um ferro-velho. Zezinho e o irmão constroem churrasqueiras de vários tipos, das usadas para fazer espetinhos àquelas maiores com chaminés. Utilizam como matérias-primas rodas de carros, tubos de PVC, arame, tonéis de metal, latas, eletrodomésticos e móveis velhos e o que mais aparecer.

 

Além da criatividade, a oficina prima pelo fator ambientalmente correto, ao reaproveitar materiais poluentes. “Aqui tudo é reciclado”, garante Zezinho. O artesão dos metais assegura que ele e o irmão aprenderam o ofício sozinhos. “Eu olho aquele monte de peças e já começo a ter idéias para aproveitá-las”, conta. Se alguém um dia passar por Caruaru, a barraca do Zezinho é a de número 118 e fica no Setor de Ferragens.

 

No sábado (25), voltei na Feira de Caruaru rapidamente para comprar queijo manteiga, favas, manteiga de garrafa e bolo de macaxeira, maravilhosas iguarias nordestinas que custam os olhos da cara no “Sul” – como se referem os caruaruenses de forma geral aos estados fora do Norte e Nordeste.

 

Sou guiado na feira pelo prestativo taxista Jorge Gomes, um senhor que me lembra Ivanildo Sax de Ouro com cabelos. Com boa vontade me conduz pela Feira para que possa comprar os produtos que desejo. Se alguém um dia precisar de um táxi em Caruaru, o senhor Jorge atende pelos celulares (81) 8806-9141 e (81) 9973-9304.

 

Enquanto caminho dou uma olhada e constato que ali tem de tudo mesmo, conforme dizia Luiz Gonzaga: galinhas vivas, verduras, bebidas, queijos, doces, ferragens, roupas, tapetes, artesanatos e por aí vai.

 

Em termos de memória artística, Caruaru tem o Museu do Barro, ao lado do famoso Pátio do Forró, onde acontecem eventos de todos os tipos, de feiras comerciais ao clássico São João.

 

O Museu do Barro conserva bonecos do legendário artesão Mestre Vitalino e de outros artistas. Os artesanatos de Vitalino reproduzem personagens típicos do Nordeste como cangaceiros e os artistas de forró e bumba-meu-boi.

 

No mesmo prédio do Museu do Barro funciona o Museu do Forró que mantém viva a memória de Luiz Gonzaga, papa dos forrozeiros. Nunca é demais lembrar de Gonzaga em tempos em que forró virou sinônimo de popularescos  como essas bandas estilo Magníficos e Fala Mansa.

 

No Alto do Moura, está a Casa de Mestre Vitalino. Lá não há obras suas e sim objetos pessoais e sua residência preservada, além de criações de seus descendentes, que também se dedicaram ao artesanato.

 

No Alto do Moura, existe um monte de restaurantes dedicados à paixão gastronômica local: o bode. Como um apetitoso filé de bode na brasa, acompanhado de favas e queijo coallho. Maravilha.

 

Deixo meus sinceros agradecimentos ao povo hospitaleiro de Caruaru, que se orgulha de sua terra e está sempre disposto a ajudar e a informar o turista. Vou guardar saudades também do café da manhã do Hotel Village, que a exemplo dos bons hotéis nordestinos é repleto de frutas, mugunzá, tapioca, bolos e tantas outras delícias.

 

 



 Escrito por Marcelinho às 20h21
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MÚSICA

Originals e o "melhor" dos 60 e 70

Reprodução

Jimi Hendrix, este sim um dos melhores sons da década de 60

Vejo por aí uns cartazes com uns coroas gordos e carecas com uns ternos horríveis dando um sorriso amarelo. Na propaganda está escrito The Originals e diz que são membros originais dos Fevers, Renato e Seus Blue Caps e, se não me engano, Os Incríveis. O cartaz informa que no show os "rapazes" irão tocar o “melhor dos anos 60 e 70”.

Caramba, nem sei o que esses senhores vão realmente apresentar em sua performance, mas só pela referência dos grupos horríveis aos quais pertencem não quero nem imaginar a cafonice que será a apresentação desses vovôs.

Falava sobre este show com um amigo, Louis Maaaassa, personagem freqüentemente citado nestas páginas, e ele comentava: “Éeeeeeeeeeeeeeee. Você acha que os caras vão tocar Jimi Hendrix e Led Zeppelin só que não vai rolar nada diiiiisssooooooo,. Éeeeeeeeeeeeee. Você vai ouvir no máximo aquelas versões de Beatles da Jovem Guarda”.

Concordo com o meu amigo. Esses shows e festas de revival aqui no Brasil servem sempre para ficar venerando o lixo, o pior da produção cultural realizada na época "homenageada".

Quando há festa dos anos 60, nas pick-ups ou no palco desfilam aquelas canções bregas da Jovem Guarda, parte significativa delas versões de mau gosto de composições dos Beatles vertidas para o português. Pobres John e Paul.

Sei que existe muita gente que até faz trabalhos de qualidade e foi influenciada por Jovem Guarda. Tenho amigos que gostam, porém, particularmente, nunca engoli aquele movimento de qualidade absolutamente duvidosa, com um música fraca e as letras piegas numa imitação aterrorizante do rock anglo-americano sessentista. Não por acaso, enquanto o rock’n’roll lá fora evoluiu para a psicodelia, a garageira e tantas outras expressões criativas, aqui a Jovem Guarda rendeu frutos como o brega e o sertanejo dos anos 70. Que triste!

Se a festa celebra os anos 70, o destaque fica com a música brega ou com aqueles hits mais do que manjados de discoteca americana e brasileira, como as Frenéticas (arghhhh). E se o evento for de “retorno aos anos 80”, prepare-se para aturar RPM, Ursinho Blau-Blau, Metrô e outras "pérolas".

Resumindo, você jamais escutará Hendrix, Frank Zappa, Velvet Underground, Led Zeppelin, Black Sabbath, Sonic Youth, Dead Kennedys e tantos outros artistas que realmente constituem o melhor do rock dos anos 60, 70 e 80.

Fim de tarde, hora de escutar um som de qualidade e esquecer que eu vi o cartaz desses artistas nada originais.

Tchau!

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 17h52
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SHOW

Cult mantém velha energia nos palcos

 

Divulgação

Vocalista Ian Astbury, um dos fundadores do grupo

 

Vinte e cinco anos após seu surgimento, a banda inglesa The Cult prova que ainda tem muita energia para mostrar, como está se vendo na terceira turnê brasileira do grupo. Ontem, sexta-feira (10), o Cult tocou no Iate Clube, aqui em Brasília. O público, que lotou o espaço, foi prestigiado com o repertório de todas as fases da banda comandada pelo vocalista Ian Astbury e pelo guitarrista Billy Duffy, únicos remanescentes da formação original.

 

Completam o time o Mike Dimkich (guitarra base), Chris Wyse (baixo) e John Tempesta (bateria). A cozinha da banda é bastante competente, mas quem se destaca mesmo são Astbury e Duffy. Com uma performance estática, lembrando muito Joey Ramone, Astbury conserva o vozeirão dos anos 80, enquanto o parceiro Duffy bota fogo na platéia com sua exímia técnica de guitarra, nos riffs e, principalmente, nos solos.

 

Ao longo dos anos, o Cult trilhou por vários gêneros, passando pelo gótico, pela neo-psicodelia, pelo metal e até pela fusão de rock com música eletrônica. Um pouco de cada uma dessas facetas foi mostrada ao público.

 

 De Dreamtime, ancestral álbum de estréia, interpretaram Horse Nation e Spiritwalker. Da fase hard’n’heavy, tocaram Fire Woman, a balada Eddie e Sweet Soul Sister, do disco Sonic Temple, e Lil’ Devil, Wild Flower e Love Removal Machine, do Electric. No show recuperaram até The Witch, uma canção de rock eletrônico dançante do início dos anos 90, da trilha do filme-desenho Cool World. Do repertório mais novo levaram Illuminated, de Born Into This, CD lançado em 2007. Essa música mantém o velho estilão da banda.

 

Os momentos mais celebrados da apresentação ocorreram com as canções de Love, a obra-prima da banda britânica. Abriram o show com Nirvana e Rain e finalizaram com She Sells Sanctuary, para delírio da platéia, que ia de coroas gordos e carecas a jovens metaleiros do século XXI. Também levaram a pesadíssima Phoenix, em que Billy Duffy alucina com solos no pedal wah wah. Faltou alguma coisa? Sim, claro, Revolution, um dos maiores hits da banda e que algumas rádios usaram para chamar seus ouvintes para o show. Fica pra próxima.

 

Neste sábado (11), o Cult toca em Fortaleza e amanhã (12) encerra a digressão brasileira no Rio.

 

Valeu a pena vê-los em cerca de uma hora e meia de muita pauleira e energia. Foram R$ 40 bem gastos em uma calorenta noite de sexta-feira. Até a próxima turnê.

 

Deixo como dica um site português dedicado ao grupo.

 

http://thecult.blogs.sapo.pt/

 



 Escrito por Marcelinho às 22h38
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CRÔNICA

 

Curtição na Gotham City brasileira

 

São Paulo, a maior cidade brasileira, na loucura nas 24 horas do dia a semana inteira

 

A impressão que sempre tenho quando o avião vai pousando em São Paulo, particularmente quando chego pelo Aeroporto de Congonhas, é a de que vou aterrissar em Gotham City, como todos bem sabem a cidade fictícia onde vive o super-herói Batman.

 

Isso aconteceu mais uma vez na última quarta-feira (8), no meio da tarde, com Sampa com o tempo encoberto. Já nos procedimentos de pouso, o avião ficou uns dez minutos voando no meio das nuvens. De repente, avistam-se os prédios e se começa a pousar, com os tons cinza das edificações e do tempo nublado em destaque. Fora do avião, em solo, a temperatura é de doze graus. Faz frio.

 

Basta entrar no táxi e sair pela cidade para ver a vida pulsando por todos os lados. Quanto mais venho aqui, após tantos e tantos anos, mais gosto dessa verdadeira loucura urbanóide, a grande cidade do País, com sua mistura de culturas do Brasil e do mundo inteiro.

 

Pelas ruas, emos, punks, metaleiros, mods, hippies, góticos, lindas garotas com seus visuais elegantes e moderninhos e toda a fauna das tribos contemporâneas. Lembro do que diz um amigo meu, Alessandro Meu Camarada de Soares, de que quando você vai à Galeria do Rock, na Praça da República, parece que entra num museu vivo da cultura pop, com personagens de várias épocas devidamente preservados com suas camisas, tatuagens e cabelos. Em meio à essa maravilhosa Gotham City de verdade, até acho que vou esbarrar com o Coringa, o Charada ou o próprio Batman correndo ali pela Avenida Paulista.

 

Sempre com uma intensa oferta gastronômica e vasta programação cultural, há o que se fazer nas 24 horas do dia. Aproveito para ir mais uma vez ao La Arena, um restaurante argentino de excelente categoria, na Alameda Ministro Rocha Azevedo. Peço um tapa de quadril, o equivalente argentino à nossa picanha com legumes.

 

Na noite de quinta-feira (9), após compromissos de trabalho por todo o dia, eu e meu amigo Alessandro Meu Camarada vamos a um bar muito legal chamado Exquisito (saboroso, em espanhol e não esquisito em português) encontrar com conhecidos paulistanos desse rapaz, uma turma muito simpática e acolhedora. Apesar do nome hispânico, o bar só toca música brasileira e tem na decoração desenhos típicos ligados à cultura de cordel nordestina. Peço no cardápio um gigante hambúrguer Pancho e uma Guinness fria. Muito bom.

 

Ainda aproveito essa rápida temporada para tomar café por dois dias na ótima padaria Bela Vista, perto da Haddock Lobo, para começar bem o dia com iguarias como bolos, frutas e pães. Comer sempre é algo maravilhoso e, em São Paulo, comer bem é um verdadeiro culto. Não é verdade?

 

Eis que chega a sexta. Depois de dois dias de muito frio, o céu abre repentinamente e a cidade esquenta. Queria ficar o fim-de-semana para curtir a verdadeira Gotham City só que obrigações me chamam de volta a Brasília. Hora de pegar o avião pra casa.

 

Até a próxima.

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 19h45
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MÚSICA

The Cult no Brasil

 

Grupo inglês na fase Love, no meio dos anos 80

 

 

A banda inglesa The Cult iniciou na última quinta-feira (2), em Porto Alegre, sua terceira turnê pelo Brasil, que ainda inclui shows em Curitiba, nesta terça (7), em São Paulo, na quarta (8), aqui em Brasília, na sexta (10) e, finalmente, em Fortaleza (11).

 

O Cult foi uma das bandas de rock mais populares dos anos 80. Surgiu na cidade inglesa de Yorkshire em 1983, criada por ex-integrantes do Southern Death Cult e do Death Cult. Em sua formação original estavam o vocalista Ian Astbury, o guitarrista Billy Duffy, o baixista Jamie Stewart e o baterista Nigel Preston.

 

O primeiro disco saiu em 1984 e intitulava-se Dreamtime. É o álbum gótico do grupo, mais relacionado às influências de bandas anteriores de seus componentes, como o Southern Death Cult, de Astbury, e o Theatre of Hate, de Duffy. Influências psicodélicas e temas místicos também marcaram o disco. Há um show em Londres, em 84, que registra a primeira formação do grupo na ativa tocando o repertório do álbum.

 

Em 1985, saiu o segundo álbum da banda, Love, que mesclava influências góticas, psicodélicas, punk e de elementos do heavy rock dos anos 70, de bandas como o Led Zeppelin. A imprensa batizou essa sonoridade e de outros grupos como o Mission de Positive Punk.

 

Love é o melhor disco da banda. Lembro quando saiu aqui no Brasil, em 1986, quando cursava o segundo ano do atual Ensino Médio. Saí correndo para comprar o vinil. Tinha lido uma reportagem sobre os caras na extinta revista Bizz e os clipes de Revolution, Rain e She Sells Sanctuary passavam incansavelmente na TV, com destaque para as belas guitarras Les Paul de Billy Duffy.

 

Além dessas faixas dos vídeos, Love trazia outras canções muito boas como Big Neon Glitter, Love e Phoenix. Essas duas últimas eram dois ótimos exemplares de músicas inspiradas na pauleira setentista com Duffy detonando com solos nos pedais wah-wah.  

 

 

 

Fora o virtuosismo do guitarrista, os méritos também iam para os vocais e letras de Astbury, nitidamente de inspiração nos anos 60, como se percebe na flower-power Revolution. Jamie Stewart e os vários bateras que passaram pelo grupo eram competentes.

 

Love marcou a saída de Nigel Preston, que tocou apenas em uma faixa, She Sells Sanctuary. Problemas com drogas motivaram a saída do músico, que morreu de overdose em 1992. Mark Brzezicki, do Big Country, gravou o álbum e Les Warner entrou para excursionar e gravar Electric.  

 

A partir de 1987, o Cult começou a trilhar por caminhos mais heavy metal, como se viu nos álbuns Electric, Sonic Temple e Ceremony. The Cult, de 1994, trouxe o grupo flertando com o indie dance rock, então bem popular, e com a música eletrônica.

 

Desde a década de 90, o grupo acabou e voltou, com as formações girando em torno de Astbury e Duffy. Os anos 90 trouxeram também os projetos paralelos dos integrantes. Astbury formou os Holly Barbarians, participou do disco solo de Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath e, mais recentemente, excursionou com ex-integrantes do The Doors, inclusive tocando no Brasil.

 

Confesso que estou curioso para ver os caras no palco, pois escutei muito nos anos 80 e carrego no meu Ipod canções do Love e do Dreamtime. Quero ver se os caras ainda mantêm no palco energia similar à daqueles tempos. Prometo postar um comentário até o fim da semana falando do show.

 

Valeu!

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 20h20
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MÚSICA

Um incrível gênio da guitarra

 

Imagens: reprodução

Há quase 15 anos, o mundo perdia um dos maiores guitarristas da história

 

Só pelo seu fantástico talento como guitarrista o norte-americano Frank Zappa (1940-1993) já mereceria um lugar no Olimpo da música moderna. Zappa foi também compositor requintado, letrista crítico e bem humorado, arranjador inventivo, produtor de discos, cantor e até diretor de filmes. Quase 15 anos após a morte dele, sua obra vive, marcada pela irreverência, pelo virtuosismo e pela versatilidade.

 

Frank Zappa nasceu no dia 21 de dezembro de 1940 na cidade de Baltimore. Bem cedo se interessou pela música e começou a estudar. Na adolescência, nos anos 50, Frank demonstrava um interesse diversificado por gêneros musicais. Ouvia compositores eruditos contemporâneos como Edgar Varèse, blues e rhythm’n’blues. O ecletismo refletiu-se na música que desenvolveu ao longo da vida. Zappa incursionou por estilos como o hard rock, o doo-wop, o progressivo, o jazz rock, o jazz, o pop experimental, a música erudita, o reggae e vários outros.

 

Como guitarrista, Frank Zappa exibia uma técnica para poucos, mesclando virtuosismo ao sentimento do blues, com riffs pesados e longos solos. Chama também bastante a atenção no trabalho do artista a vastidão – gravou em torno de cem discos – e a complexidade de sua obra, com temas compostos e arranjados em um conjunto enorme de instrumentos, com rica diversidade de timbres, ritmos e harmonias.

 

Pela elaboração de sua música, Frank Zappa pode ser considerado um dos músicos que contribuíram para o desenvolvimento do rock progressivo nos anos 70. Embora muitos trabalhos do guitarrista se encaixem nesta tendência, Zappa explorou outros horizontes e se distanciou dos clichês do rock sinfônico para os quais os progressistas apelavam constantemente.

 

Curiosamente, embora fizesse uma música muito sofisticada, Zappa também se afastava dos grupos-padrão de rock progressivo à medida que usava muito humor em sua música. O maior alvo para as suas críticas era a sociedade norte-americana, com seus pés fincados no consumo, com seus parques temáticos e supermercados, e no conservadorismo sócio-político.

 

 

Irreverência e genialidade marcaram trajetória do músico

 

Autoridades, donas de casa, estudantes de high school, patricinhas, garotas católicas, ícones da direita e nem mesmo figuras que teoricamente expressariam a rebeldia, como os hippies e os punks, escapavam da ótica debochada de Zappa. Na vinheta I could be a star now, do álbum Playground Psychotics, uma voz pergunta a um músico o que ele vai fazer tocando com os Mothers of Invention. “Por que você não vai tocar jazz com o Blood Sweat and Tears ou fazer um blues excitante com John Mayall”, sugere a voz em tom sarcástico.

 

Algumas curiosidades sobre Zappa. Os Beatles chegaram a processar o guitarrista pela paródia da capa do Sargeant Peppers no álbum We’re only in it for the Money (em português, “estamos nisso só pelo dinheiro”), de 1968. Mesmo assim, depois ficaram amigos. Ringo Starr participou do filme 200 Motels, de Zappa, e John Lennon usou o guitarrista e os Mothers no álbum duplo ao vivo Some time in New York City, de 1972.

 

Outra narrativa curiosa. Em 1971, Frank Zappa e os Mothers of Invention se apresentavam no cassino de Montreux, na Suíça, quando um incêndio começou e destruiu o lugar. Os integrantes do Deep Purple estavam na platéia e compuseram em referência ao ocorrido a canção Smoke on the Water, do álbum Machine Head, que conta a história do incêndio e cita Zappa e seu grupo na letra.

 

Freak Out, primeiro álbum de Zappa e de sua banda, os Mothers of Invention, lançado em 1966, abriu caminho para uma trajetória de mais de duas décadas voltadas para a sátira. Uma das marcas desse som irreverente era quando botava os vocalistas de sua banda para fazer umas vozes finas em contraponto a uma entonação de bobão a cargo do próprio Zappa. Seus shows incluíam verdadeiras catarses como festivais de dança que o guitarrista bigodudo promovia para a platéias, coreografias executadas por ele e seus músicos e diálogos gozadores que levava com figuras como o baterista Terry Bozzio.

 

Lembrando dos músicos, um exército de virtuoses se apresentou ao lado do guitarrista em mais de vinte anos, como o tecladista George Duke, o violinista Jean-Luc Ponty, os bateras Bozzio e Ainsley Dunbar, e o ídolo das academias de guitarra veloz Steve Vai. Tocar com Zappa era uma escola da qual nenhum músico esperto abriria mão, além, claro, de ser uma diversão.

 

 

Além de exímio instrumentista, Frank cantava, compunha, produzia e arranjava

 

No dia 4 de dezembro de 1993, a trajetória de Frank Zappa chegou ao fim, quando o músico morreu vítima de um câncer de próstata. Fato muito triste para a música, porém vamos pensar que Frank gostaria de ver as pessoas ainda dando boas risadas e curtindo sua música.

 

O legado do artista influenciou e ainda influencia artistas das mais variadas tendências como Alice Cooper, Black Sabbath, The Tubes, Devo, George Clinton, John Zorn.

 

Em meio a uma obra tão vasta é difícil selecionar o melhor de Zappa. Deixo como recomendação Hot Rats, Ship arriving too late to save a drowning witch, Freak out, The Grand Wazoo, Zoot Allures e o ao vivo Buffalo.  Uma boa audição.

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 15h27
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CONTO

Abaixo um trecho de conto em produção

CRIANÇAS FANTASMAS

Há um conto de Rudyard Kipling que narra a história de uma velha senhora em uma cama, que começa a ter visões de crianças ao seu redor. A história do autor britânico leva o leitor a seguir por dois caminhos: se a mulher realmente vê os fantasmas dos pequeninos ou se a senhora, na verdade, encontra-se mergulhada em um delírio provocado por uma grave enfermidade.

 

Situação semelhante à desse conto ocorre com o jovem Michel. Há algum tempo,  mudou-se para uma velha casa, herdada de um parente falecido. Na centenária residência, localizada em um estreito beco, não cessa de ver dezenas de crianças – seja dia ou noite – correndo e brincando pela casa.

 

A primeira vez em que isso ocorreu, não se deu conta de que se tratava de um ente de outro mundo, e não de uma criança. Havia acabado de acordar, descia as escadas para a cozinha, a fim de preparar seu café da manhã, quando viu um garoto sentado à escada. De imediato ficou confuso, pois não sabia como aquela criança havia chegado ali.

 

Aproximou-se para perguntar. O garoto, que deveria ter uns cinco anos e vestia uma curiosa roupa, com uma camisa social, suspensórios e uma bermuda, virou-se para ele com um olhar singelo. Era moreno, com um cabelo liso e escuro caindo com franja sobre os olhos enormes.

 

– Quem é você?

– Paulo.  

– Como entrou aqui?

– Não precisei entrar. Eu já estava dentro.

 

Irritado, Michel insistiu.

 

– É melhor você me dizer como entrou porque vou ter que chamar seus pais ou então a polícia. A porta estava aberta?

 

A criança olhou para o jovem proprietário da casa e sorriu com tal espontaneidade que se desfez o mau humor de Michel. Em tom mais ameno, voltou a insistir:

 

– Não vai me falar?

 

O garoto levantou-se do degrau em que estava sentado e, repentinamente, disparou na direção da cozinha.

 

– Ei! – gritou Michel.

 

O rapaz correu até a cozinha só que ao entrar no recinto, viu que não havia ninguém lá. Assustado, levantou a toalha da mesa para olhar e olhar se o menino não se escondera ali. Não estava. Abriu até os armários para buscar o pequeno intruso.

 

Começou a se perguntar se não havia tido uma alucinação. Não poderia haver nenhum menino na casa. A porta da rua permanecia trancada por dentro, conforme na noite anterior. Revistou a casa inteira e nada. Deve ter sido mesmo uma alucinação, pensou, pois não encontrou nenhum vestígio da presença do tal fedelho.  

 

Comunicou o fato a Matilde, velha cozinheira de sua família e que acertara para vir duas vezes por semana preparar-lhe refeições. Impressionada com o relato do jovem patrão, comprometeu-se a procurar. Michel saiu para o trabalho e deixou a cozinheira com seus afazeres.

 

Quando regressou para casa, no fim da tarde, não encontrou a mulher. Havia apenas um bilhete.

 

“Desculpe. Tive que ir embora. Por favor, me ligue”.

 

O jovem proprietário telefonou para Matilde.

 

– Viu que deixei alguma comida preparada no forno?

– Sim, claro. E como foi o trabalho?

– Fiz o que pude. Só não demorei muito.

– Não demorou?

– Essa casa. Ela é muito estranha. Se eu fosse o senhor ia embora.

– Como assim estranha? Você encontrou o menino?

– Não. Não encontrei ninguém.

– Então o que houve?

– Barulhos. O tempo inteiro fiquei escutando barulhos como se um monte de gente corresse pela casa. E gritos. E risadas. Sim, risadas de crianças. Parecia que havia um monte de crianças brincando na sala. Quando corria para ver, só encontrava o silêncio total e ninguém. Fiquei com muito medo. O pior foi no começo da tarde, depois que eu acabei de almoçar. Estava descansando na mesa da cozinha, quase cochilando. De repente, escutei uma voz de uma menina, atrás de mim. A voz perguntou se eu ia fazer um bolo. Dei um grito e pulei da cadeira. Quase morri do coração.

– Tem certeza de que não dormiu e sonhou com isso?

– Sonhei? De jeito nenhum. Eu ouvi a voz. E sentia que tinha mais alguém junto comigo na cozinha, mesmo sem ver. Acho que era muita gente. Nessa hora, peguei minhas coisas, tranquei a casa e fui embora. Desculpe, não volto aí nunca mais. E se eu fosse o senhor saia dessa casa imediatamente. Vá embora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 21h56
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MEMÓRIA

Rick Wright morre aos 65 anos

 

Reprodução

Tecladista do Pink Floyd morreu ontem

 

A bruxa parece realmente estar à solta. Ontem (15) mais uma triste notícia, com a morte do tecladista inglês Richard Wright, do Pink Floyd, uma das bandas de rock mais influentes de todos os tempos. Richard tinha 65 anos e faleceu vítima de um câncer com o qual lutava há algum tempo, segundo informou um porta-voz do artista. Wright vai embora dois anos após o óbito de outro membro célebre do Floyd, o cantor e guitarrista Syd Barrett. Rick Wright marcou a banda com sua voz e seu som espacial de teclado em discos como Atom Heart Mother, Meddle e The Darkside of the Moon.

Rick nasceu em Londres, em julho de 1943. Estudou música formal, no entanto foi em uma instituição de ensino superior de arquitetura que conheceu o baixista Roger Waters e o baterista Nick Mason. Com eles, e mais os guitarristas Bob Klose e Syd Barrett, formou o Pink Floyd, em 1966. Foi Syd quem batizou a banda, tirando o nome de dois artistas de blues de quem gostava muito, Pink Anderson e Floyd Council.

Klose não durou muito no grupo e saiu em 66. No ano seguinte, como um quarteto, o Pink Floyd estreou em disco com o psicodélico The Piper at the Gates of Dawn. O álbum resultava muito da genialidade de Syd como compositor e intérprete e seu som mergulhava em trips lisérgicas. Os abusos de Barrett com as drogas pesadas terminaram forçando sua saída do grupo.

Com a partida de seu alucinado líder, o Pink Floyd entrou em uma nova era, com David Gilmour como substituto nos vocais e na guitarra. Com o line-up de Waters, Gilmour, Wright e Mason, o Floyd se tornou o grupo mais importante do rock progressivo na virada dos anos 60 para os 70. A corrente se distanciava do formato mais básico e cru do rock’n’roll e criava um repertório mais elaborado e sofisticado, com influências do improviso do jazz e da forma da música erudita.

Porém, enquanto muitos grupos progressivos exageravam no virtuosismo e nos climinhas barroco-renascentistas, o Pink Floyd construiu sua obra com uma nova sonoridade, diferenciada e experimental, sem abrir mão do sentimento, com grande influência do blues. Alguns críticos usaram o rótulo de rock espacial para definir o som do quarteto, pois diziam que a música do Floyd  sugeria uma “viagem espacial”.

O teclado de Richard Wright exerceu grande papel nesse contexto. Como Brian Eno, do Roxy Music, Rick usava seus sintetizadores para transformar ruídos em elementos harmônicos e não abria mão do potencial melódico do piano em uma canção de rock acústico.

Em 1971, o Pink Floyd realizou um dos marcos de sua carreira com a gravação do filme Live at Pompeii, nas ruínas da cidade italiana de Pompéia. O grupo tocou apenas para a equipe técnica do documentário. O resultado foi o rockumentário originalíssimo, dirigido por Adrian Maben e que se tornou uma referência.