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POEMA

 

 

Noite sem fim (Festim de Espectros)

 

Dedicado a F.W. Murnau

 

 

As velhas distribuem doces

Ratos pulam das paredes

Para o meu corpo

E eu não consigo me desviar

Nesta noite sem fim

 

Teu fantasma, de imagem tão sofrida,

Vem me visitar, como se você ainda estivesse viva

Outro espírito me consola

E eu pergunto: “vocês ainda moram aqui?”

Nesta casa?

Na noite sem fim

 

Mas então ouço o Cavaleiro do Mal pegar sua corda

Descer pela velha igreja abandonada

Com sua lâmina impiedosa

Percebo: “ele vem me matar”

Em uma noite sem fim

 

Enquanto o Cavaleiro do Mal persegue outros,  

Fujo

Dou um mergulho nas escuras cavernas

Pois conheço o seu rosto

É a morte que me chama, prestes a chegar

Na noite sem fim

 

Mais um ser encapuzado vaga entre os vivos

Este eu não conheço

Com um enorme cajado, ameaça todos

Corro e lhe derrubo

Mas o que era este espectro?

Apenas um boneco, que se deixou possuir pelo mal

Na noite sem fim

 

Escuto um último lamento

Murmurando angustiado, um ser de feições sinistras

Seu rosto é todo deformado

Por mil noites sem fim

Alguém vai pagar por isso

E mais uma vez o mal ganha vida

Em um de seus solitários

Cuidado, a morte está lá fora.

 

Minha amiga morta,

Aparece novamente

Recebo você em prantos

Agradeço a visita nas noites sombrias

Apesar de morta, nunca me abandona

Minha amiga de ternura fantasmagórica

Teu semblante nunca é sereno

Só transparece sofrimento

E as suas roupas brancas

Apenas reforçam suas qualidades penadas

Por mais que eu desperte

Só posso vagar pela escuridão sem fim

Nestes corredores

De brumas e trevas

De uma noite que não terá fim

 

Helena,

Não se preocupe comigo

Só estou em um lugar estranho

Em meio a trevas

Que me dominam

Sempre que anoitece

Quando mergulho no abismo infinito

Do terrível Nosferatu

Não chore

Eu não afundo no plasma

Nem naufrago no Navio Fantasma

Helena,

Eu voltarei.

  

Marcelo Araújo.

 

 

 



 Escrito por Marcelinho às 18h54
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ARTES PLÁSTICAS

De Chagall a Verger

 

O surrealista La Promenade do franco-russo Marc Chagall

Já visitei duas vezes a exposição Virada Russa e gostaria de recomendar. Está no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, até o dia 7 de junho. Foi uma das melhores mostras que vi nos últimos tempos, com um conjunto de 123 obras de representantes da vanguarda russa, do início do século XX.

A Virada Russa reúne peças do Museu Estatal de São Petersburgo, instituição que dispõe do maior acervo de arte russa do mundo. O interessante da mostra é que ela passeia por variadas tendências, do surrealismo à arte engajada e revolucionária.

O que mais gostei em toda a exposição é La Promenade (O Passeio, do francês), que Marc Chagall (1887-1985) realizou entre 1917 e 1918. Neste quadro, em uma paisagem onírica, um jovem estende a mão à sua companheira, que levita. La Promenade seduz, mexe com o imaginário do observador e constitui uma das provas de Chagall ser um dos papas do movimento surrealista.

Judeu russo, Marc emigrou bem jovem para a França. Durante a Segunda Guerra Mundial, devido às perseguições aos judeus pelos nazistas, emigrou para os Estados Unidos. Com o fim do conflito, regressou à França, país em que morou até o fim da vida, quando já contava 98 anos.

Só esse quadro já valeria o passeio, mas ainda há outros quatro do abstracionista Kandinsky (1866-1944). Como Chagall, também emigrou da Rússia. Morou na Alemanha até a eclosão da Primeira Guerra. Por conta disso mudou-se para a Suíça e voltou à Rússia. Nos anos 20, regressou à Alemanha e trabalhou como professor da lendária escola de arquitetura Bauhaus. Com a ascensão de Hitler, em 1933, Kandinsky partiu para a França, onde terminou seus dias.

E além de Chagall e Kandinsky, há muito para se ver nas duas galerias que abrigam a Virada Russa.

Outra exposição bem legal pela qual passei esses dias os olhos foi Pierre Verger-Andalucía 1935, no Instituto Cervantes. O fotógrafo e etnólogo Pierre Verger (1902-1996) é certamente uma das figuras mais interessantes do século XX. Rodou o mundo e fixou residência entre a Bahia, principalmente, e a África. Apaixonou-se pelo candomblé e outras manifestações do universo cultural afro-brasileiro.

 

Acervo Fundação Pierre Verger

Registro de personagem durante passagem de Pierre Verger pela Andaluzia, em 1935

Na sede da Fundação Pierre Verger, em Salvador, existem mais de 60 mil negativos e fotografias, junto com documentos do etnólogo.

Na exposição do Instituto Cervantes aparecem fotos que Verger fez na Espanha em 1935 viajando de bicicleta, com enfoque na passagem pela Andaluzia. O trabalho aconteceu pouco antes do começo da guerra civil espanhola e se fixa no cotidiano dos moradores da região.

E para fechar uma notícia: na próxima quinta-feira (23), no Conjunto Cultural da Caixa, haverá a inauguração da exposição Rubens e seu ateliê de gravura, dedicada ao artista flamengo. Mais uma ótima opção sem dúvida.  

 



 Escrito por Marcelinho às 15h43
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CONTO

Trecho de um conto inédito: A Noiva

 

 

Cláudio olhou o relógio. Passava de meia-noite. Deu o último gole no vinho, pegou a taça e levou para a cozinha. “Vou dormir como um bebê”, pensou. Casa adentro, o silêncio era total. Lúcia, sua esposa, devia estar no oitavo sono.

Ligou a torneira, pegou a esponja com um pouco de sabão, enxaguou a taça e depois a colocou para secar.

Enxugou as mãos, apagou a luz da cozinha e caminhou à sala. Foi até a janela e fechou-a. Fazia um frio de rachar e estava com jeito de que ia chover.

O jovem virou-se para ir até o interruptor e apagar a luz, porém algo o deteve.

Um enorme vestido branco, como o de uma noiva, pairava alguns metros adiante, à frente da porta da rua. Era um vestido longo, à moda antiga, provavelmente do tipo que as mulheres usavam há décadas para casamentos ou bailes. Era repleto de babados e outras ornamentações, como pequenos grupos de rosas brancas pregadas. O vestido brilhava e ofuscava a vista de Cláudio como um enorme clarão.

Imóvel, o rapaz percebeu que não se tratava apenas de um vestido. Braços brancos, muito brancos, saiam das mangas e terminavam em mãos que se punham sobre a cintura. Havia um corpo dentro do vestido, que desenhava suas curvas pela roupa em partes como o busto e os ombros. As pernas apareciam discretamente por dentro do vestido e se encerravam em pés calçados por um par de sapatos brancos arredondados. Seu rosto era coberto por um véu branco.

Cláudio concluiu que observava uma noiva.  Não falou nada. Apenas olhou. Num ato instintivo de verificar se aquilo era verdade mesmo ou apenas uma alucinação, levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos, fechando-os levemente.

Ao abri-los, a mulher não estava mais ali. Desaparecera tão misteriosamente quanto surgira.

Cláudio imediatamente avançou para o corredor. Não viu nada. Andou na cozinha, após acender a luz, e também não encontrou nada.

Rapidamente apagou as luzes da cozinha, regressando à sala. O silêncio imperava no ambiente, sem qualquer indício da presença de alguém, que não o dono da casa.

 

2009, by Marcelo Araújo

 



 Escrito por Marcelinho às 19h57
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Categoria: Link
 Escrito por Marcelinho às 18h17
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Folclore

Histórias que o povo conta

Autor de Casa Grande e Senzala, livro absolutamente imprescindível aos que querem conhecer a formação sociocultural do povo brasileiro, o pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) realizou em 1955 interessante registro do folclore sobrenatural e fantasmagórico de sua cidade natal em Assombrações do Recife Velho. No livro, o sociólogo e escritor compila relatos deliciosos e assustadores sobre criaturas como lobisomens, monstros e, principalmente, fantasmas.

Quem me chamou a atenção para essa obra maravilhosa de Freyre foi o jornalista Rosualdo Rodrigues, do Correio Braziliense, quando fez uma matéria sobre meu livro, Não Abra – Contos de Terror. Desde que apresentei o projeto desse livro ao Fundo da Arte e da Cultura (FAC), aqui em Brasília, deixei clara a influência que tenho do folclore e da tradição oral brasileiros de narrativas de terror e sobrenaturais.

Há pouco mais de duas semanas, comprei o livro de Freyre no sebo Baratos da Ribeiro, na rua Barata Ribeiro, em Copacabana, no Rio. Aliás, recomendo a loja, onde se encontram não apenas raridades em publicações como também excelentes LPs de rock e jazz.

Achei interessante que Gilberto Freyre, no prefácio de Assombrações do Recife Velho, aconselha o leitor a não se surpreender com o facto de o autor, um sociólogo, enveredar pelo tema sobrenatural. “Pois não há contradição radical entre sociologia e história, mesmo quando a história deixa de ser de revoluções para tornar-se de assombrações”, escreve Gilberto.

A fonte do rico material presente no livro são pessoas com as quais Freyre conviveu durante anos, como famosos pais-de-santo de terreiros recifenses, escritores e outros tantos amigos. O autor nos conduz com encanto pelas histórias, sem, em momento algum, tripudiar dos “causos”. Pelo contrário, reforça a importância dessa tradição na cultura popular de sua cidade e de seu estado.

Particularmente gostei muito do Boca-de-Ouro,  sobre um fantasma que vaga pelas ruas recifenses usando um chapéu panamá e pedindo fogo aos pouco afortunados que encontra.

Eu que sou fã de histórias de fantasmas de residências mal assombradas me entusiasmei com um capítulo chamado Algumas Casas, dedicado a locais habitados por entidades do além. O autor narra a existência de sobrados fantasmagóricos em várias ruas da capital pernambucana. Nesses imóveis, ouvem-se gritos, portas se abrem, janelas batem e móveis são empurrados. Alguns guardam tesouros escondidos em suas paredes e, com isso, impedem que seus antigos moradores alcancem a paz eterna.

Assombrações do Recife Velho é muito giro. É um livro que recupera um tempo distante, quando os candeeiros não eram suficientes para alumiar completamente as ruas, deixando sempre espaços nas trevas para que entidades de outro mundo viessem encontrar os vivos. Não apenas Recife, mas outras tantas cidades brasileiras, capitais e de interior, guardam histórias semelhantes. Basta uma casa ou prédio velho para que os fantasmas se aconcheguem.

Não me esqueço de uma entrevista que fiz com Eduardo Bueno, em 2003, quando ele lançou um livro sobre a história da Caixa Econômica. Na ocasião, o autor gaúcho destacou um capítulo que falava de uma agência da Caixa em São Paulo onde diziam existir o fantasma de uma mulher. O historiador contou-me que foi a este prédio para trabalhar. Perguntei-lhe se havia visto algo estranho. Bueno disse que não encontrou o fantasma. Porém, afirmou que, quando já era noite, começou a sentir uma energia estranha, aquela opressão típica de narrativas fantasmagóricas, e se mandou do local.

O lvro de Gilberto Freyre proporciona um passeio por atmosferas como essa. Portanto, se não leu, adquira este livro. Reserve a leitura para perto da hora de se deitar. E quando começarem a empurrar os móveis da sala, você saberá que as assombrações chegaram.

 



 Escrito por Marcelinho às 20h05
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