POEMA
Noite sem fim (Festim de Espectros) Dedicado a F.W. Murnau 
As velhas distribuem doces Ratos pulam das paredes Para o meu corpo E eu não consigo me desviar Nesta noite sem fim Teu fantasma, de imagem tão sofrida, Vem me visitar, como se você ainda estivesse viva Outro espírito me consola E eu pergunto: “vocês ainda moram aqui?” Nesta casa? Na noite sem fim Mas então ouço o Cavaleiro do Mal pegar sua corda Descer pela velha igreja abandonada Com sua lâmina impiedosa Percebo: “ele vem me matar” Em uma noite sem fim Enquanto o Cavaleiro do Mal persegue outros, Fujo Dou um mergulho nas escuras cavernas Pois conheço o seu rosto É a morte que me chama, prestes a chegar Na noite sem fim Mais um ser encapuzado vaga entre os vivos Este eu não conheço Com um enorme cajado, ameaça todos Corro e lhe derrubo Mas o que era este espectro? Apenas um boneco, que se deixou possuir pelo mal Na noite sem fim Escuto um último lamento Murmurando angustiado, um ser de feições sinistras Seu rosto é todo deformado Por mil noites sem fim Alguém vai pagar por isso E mais uma vez o mal ganha vida Em um de seus solitários Cuidado, a morte está lá fora. Minha amiga morta, Aparece novamente Recebo você em prantos Agradeço a visita nas noites sombrias Apesar de morta, nunca me abandona Minha amiga de ternura fantasmagórica Teu semblante nunca é sereno Só transparece sofrimento E as suas roupas brancas Apenas reforçam suas qualidades penadas Por mais que eu desperte Só posso vagar pela escuridão sem fim Nestes corredores De brumas e trevas De uma noite que não terá fim Helena, Não se preocupe comigo Só estou em um lugar estranho Em meio a trevas Que me dominam Sempre que anoitece Quando mergulho no abismo infinito Do terrível Nosferatu Não chore Eu não afundo no plasma Nem naufrago no Navio Fantasma Helena, Eu voltarei. Marcelo Araújo.
Escrito por Marcelinho às 18h54
[]
[envie esta mensagem]
[link]
ARTES PLÁSTICAS
De Chagall a Verger 
O surrealista La Promenade do franco-russo Marc Chagall
Já visitei duas vezes a exposição Virada Russa e gostaria de recomendar. Está no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, até o dia 7 de junho. Foi uma das melhores mostras que vi nos últimos tempos, com um conjunto de 123 obras de representantes da vanguarda russa, do início do século XX. A Virada Russa reúne peças do Museu Estatal de São Petersburgo, instituição que dispõe do maior acervo de arte russa do mundo. O interessante da mostra é que ela passeia por variadas tendências, do surrealismo à arte engajada e revolucionária. O que mais gostei em toda a exposição é La Promenade (O Passeio, do francês), que Marc Chagall (1887-1985) realizou entre 1917 e 1918. Neste quadro, em uma paisagem onírica, um jovem estende a mão à sua companheira, que levita. La Promenade seduz, mexe com o imaginário do observador e constitui uma das provas de Chagall ser um dos papas do movimento surrealista. Judeu russo, Marc emigrou bem jovem para a França. Durante a Segunda Guerra Mundial, devido às perseguições aos judeus pelos nazistas, emigrou para os Estados Unidos. Com o fim do conflito, regressou à França, país em que morou até o fim da vida, quando já contava 98 anos. Só esse quadro já valeria o passeio, mas ainda há outros quatro do abstracionista Kandinsky (1866-1944). Como Chagall, também emigrou da Rússia. Morou na Alemanha até a eclosão da Primeira Guerra. Por conta disso mudou-se para a Suíça e voltou à Rússia. Nos anos 20, regressou à Alemanha e trabalhou como professor da lendária escola de arquitetura Bauhaus. Com a ascensão de Hitler, em 1933, Kandinsky partiu para a França, onde terminou seus dias. E além de Chagall e Kandinsky, há muito para se ver nas duas galerias que abrigam a Virada Russa. Outra exposição bem legal pela qual passei esses dias os olhos foi Pierre Verger-Andalucía 1935, no Instituto Cervantes. O fotógrafo e etnólogo Pierre Verger (1902-1996) é certamente uma das figuras mais interessantes do século XX. Rodou o mundo e fixou residência entre a Bahia, principalmente, e a África. Apaixonou-se pelo candomblé e outras manifestações do universo cultural afro-brasileiro. Acervo Fundação Pierre Verger 
Registro de personagem durante passagem de Pierre Verger pela Andaluzia, em 1935
Na sede da Fundação Pierre Verger, em Salvador, existem mais de 60 mil negativos e fotografias, junto com documentos do etnólogo. Na exposição do Instituto Cervantes aparecem fotos que Verger fez na Espanha em 1935 viajando de bicicleta, com enfoque na passagem pela Andaluzia. O trabalho aconteceu pouco antes do começo da guerra civil espanhola e se fixa no cotidiano dos moradores da região. E para fechar uma notícia: na próxima quinta-feira (23), no Conjunto Cultural da Caixa, haverá a inauguração da exposição Rubens e seu ateliê de gravura, dedicada ao artista flamengo. Mais uma ótima opção sem dúvida.
Escrito por Marcelinho às 15h43
[]
[envie esta mensagem]
[link]
CONTO
Trecho de um conto inédito: A Noiva 
Cláudio olhou o relógio. Passava de meia-noite. Deu o último gole no vinho, pegou a taça e levou para a cozinha. “Vou dormir como um bebê”, pensou. Casa adentro, o silêncio era total. Lúcia, sua esposa, devia estar no oitavo sono. Ligou a torneira, pegou a esponja com um pouco de sabão, enxaguou a taça e depois a colocou para secar. Enxugou as mãos, apagou a luz da cozinha e caminhou à sala. Foi até a janela e fechou-a. Fazia um frio de rachar e estava com jeito de que ia chover. O jovem virou-se para ir até o interruptor e apagar a luz, porém algo o deteve. Um enorme vestido branco, como o de uma noiva, pairava alguns metros adiante, à frente da porta da rua. Era um vestido longo, à moda antiga, provavelmente do tipo que as mulheres usavam há décadas para casamentos ou bailes. Era repleto de babados e outras ornamentações, como pequenos grupos de rosas brancas pregadas. O vestido brilhava e ofuscava a vista de Cláudio como um enorme clarão. Imóvel, o rapaz percebeu que não se tratava apenas de um vestido. Braços brancos, muito brancos, saiam das mangas e terminavam em mãos que se punham sobre a cintura. Havia um corpo dentro do vestido, que desenhava suas curvas pela roupa em partes como o busto e os ombros. As pernas apareciam discretamente por dentro do vestido e se encerravam em pés calçados por um par de sapatos brancos arredondados. Seu rosto era coberto por um véu branco. Cláudio concluiu que observava uma noiva. Não falou nada. Apenas olhou. Num ato instintivo de verificar se aquilo era verdade mesmo ou apenas uma alucinação, levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos, fechando-os levemente. Ao abri-los, a mulher não estava mais ali. Desaparecera tão misteriosamente quanto surgira. Cláudio imediatamente avançou para o corredor. Não viu nada. Andou na cozinha, após acender a luz, e também não encontrou nada. Rapidamente apagou as luzes da cozinha, regressando à sala. O silêncio imperava no ambiente, sem qualquer indício da presença de alguém, que não o dono da casa. 2009, by Marcelo Araújo
Escrito por Marcelinho às 19h57
[]
[envie esta mensagem]
[link]
Categoria: Link
Escrito por Marcelinho às 18h17
[]
[envie esta mensagem]
[link]
Folclore
Histórias que o povo conta

Autor de Casa Grande e Senzala, livro absolutamente imprescindível aos que querem conhecer a formação sociocultural do povo brasileiro, o pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) realizou em 1955 interessante registro do folclore sobrenatural e fantasmagórico de sua cidade natal em Assombrações do Recife Velho. No livro, o sociólogo e escritor compila relatos deliciosos e assustadores sobre criaturas como lobisomens, monstros e, principalmente, fantasmas. Quem me chamou a atenção para essa obra maravilhosa de Freyre foi o jornalista Rosualdo Rodrigues, do Correio Braziliense, quando fez uma matéria sobre meu livro, Não Abra – Contos de Terror. Desde que apresentei o projeto desse livro ao Fundo da Arte e da Cultura (FAC), aqui em Brasília, deixei clara a influência que tenho do folclore e da tradição oral brasileiros de narrativas de terror e sobrenaturais. Há pouco mais de duas semanas, comprei o livro de Freyre no sebo Baratos da Ribeiro, na rua Barata Ribeiro, em Copacabana, no Rio. Aliás, recomendo a loja, onde se encontram não apenas raridades em publicações como também excelentes LPs de rock e jazz. Achei interessante que Gilberto Freyre, no prefácio de Assombrações do Recife Velho, aconselha o leitor a não se surpreender com o facto de o autor, um sociólogo, enveredar pelo tema sobrenatural. “Pois não há contradição radical entre sociologia e história, mesmo quando a história deixa de ser de revoluções para tornar-se de assombrações”, escreve Gilberto. A fonte do rico material presente no livro são pessoas com as quais Freyre conviveu durante anos, como famosos pais-de-santo de terreiros recifenses, escritores e outros tantos amigos. O autor nos conduz com encanto pelas histórias, sem, em momento algum, tripudiar dos “causos”. Pelo contrário, reforça a importância dessa tradição na cultura popular de sua cidade e de seu estado. Particularmente gostei muito do Boca-de-Ouro, sobre um fantasma que vaga pelas ruas recifenses usando um chapéu panamá e pedindo fogo aos pouco afortunados que encontra. Eu que sou fã de histórias de fantasmas de residências mal assombradas me entusiasmei com um capítulo chamado Algumas Casas, dedicado a locais habitados por entidades do além. O autor narra a existência de sobrados fantasmagóricos em várias ruas da capital pernambucana. Nesses imóveis, ouvem-se gritos, portas se abrem, janelas batem e móveis são empurrados. Alguns guardam tesouros escondidos em suas paredes e, com isso, impedem que seus antigos moradores alcancem a paz eterna. Assombrações do Recife Velho é muito giro. É um livro que recupera um tempo distante, quando os candeeiros não eram suficientes para alumiar completamente as ruas, deixando sempre espaços nas trevas para que entidades de outro mundo viessem encontrar os vivos. Não apenas Recife, mas outras tantas cidades brasileiras, capitais e de interior, guardam histórias semelhantes. Basta uma casa ou prédio velho para que os fantasmas se aconcheguem. Não me esqueço de uma entrevista que fiz com Eduardo Bueno, em 2003, quando ele lançou um livro sobre a história da Caixa Econômica. Na ocasião, o autor gaúcho destacou um capítulo que falava de uma agência da Caixa em São Paulo onde diziam existir o fantasma de uma mulher. O historiador contou-me que foi a este prédio para trabalhar. Perguntei-lhe se havia visto algo estranho. Bueno disse que não encontrou o fantasma. Porém, afirmou que, quando já era noite, começou a sentir uma energia estranha, aquela opressão típica de narrativas fantasmagóricas, e se mandou do local. O lvro de Gilberto Freyre proporciona um passeio por atmosferas como essa. Portanto, se não leu, adquira este livro. Reserve a leitura para perto da hora de se deitar. E quando começarem a empurrar os móveis da sala, você saberá que as assombrações chegaram.
Escrito por Marcelinho às 20h05
[]
[envie esta mensagem]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|