CRÔNICA
A mediocridade comanda Leitor assíduo do blog João Lêndea, do meu amigo Fernando Brasil, sempre constato a insatisfação desse colega de jornalismo em relação aos meios de comunicação. Assino embaixo e mais uma vez me sinto motivado para centrar minha mira em toda a babaquice em que se transformou a cultura de massas do Brasil desde os anos 80. Alguns fatos chateiam. O Brasil, um país que sintetiza a riqueza cultural do planeta com sua mescla de europeus, negros, índios, orientais do extremo-oriente, árabes, judeus e outros; já deu ao mundo talentos como o de Tom Jobim, Oscar Niemeyer, João da Baiana, Villa-Lobos, Machado de Assis, os modernistas e tantos outros. Comparando o presente com o passado de glórias (usando uma expressão pomposa), no que se transformou nossa cultura de massas nos últimos 30 anos? Basta ligar o rádio ou algum programa popular de TV para se obter a resposta: música sertaneja, pagode, funk carioca, axé music, coreografias para encantar os órgãos genitais e deixar a cabeça vazia como uma garrafa seca. Literalmente, a indústria cultural destruiu um dos nossos maiores patrimônios: a música. O samba, uma sonoridade maravilhosa dos anos 30 aos 60, transformou-se na melosidade dos Jorge Aragões da vida e na apelação dos pagodeiros. A MPB – que no passado teve Edu Lobo, Tim Maia, Jorge Ben Jor, João Donato e tantos outros – virou uma sigla sinônimo de “música de barzinho”, trilha sonora pra playboys e malas e que abriga em seu seio a filharada de Elis Regina, Simonal, Jair Rodrigues e sei lá mais quem. Todos esses filhotes juntos não valem uma nota de Tim Maia. Na televisão, Gugu, Luciano Huck, Faustão, Xuxa, Angélica e outros mais, com seus programas de auditórios ridículos, imbecilizantes, estimulam a aculturação e o obscurantismo. Passo mal só de olhar pra cara daquele Luciano Huck ou de escutar a voz de Fausto Silva. Talvez só percam em termos de propagar a imbecilidade para certas igrejas, que em seu culto de fé cega ignoram a modernidade com base em argumentos sem lógica e convencimento – como Deus é Pai, Deus está acima de tudo na minha vida Deus me deu tudo que tenho, Jesus comanda meus atos e etc... – jogam seus fiéis no túnel do tempo direto à Idade Média. Na literatura, que já gerou nomes antológicos como Machado, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Rubião, Monteiro Lobato, João Gilberto Knoll, Manuel Bandeira e muitos mais, vemos uma cena dominada pela auto-ajuda. Triste, porque em um país como o nosso, em que o povo nunca assimilou o hábito da leitura, o pouco que se compra de livros vai para encher o bolso do Paulo Coelho. Recentemente quase caí duro ao ouvir depoimentos de pessoas na faixa dos 30 anos, com formação universitária e de classe média e alta, dizendo que nunca leram um livro na vida e que não sentiam falta. Alguns, até falam isso com orgulho. A classe média, que deveria ser a força pensante da nação, consome os mesmos lixos que o povão e vira as costas à inteligência. Não a toa o Senado, que deveria ser uma casa legislativa de alto nível para discussão das mais importantes questões nacionais, se transformou na mansão dos horrores. Por mais que alguns torçam o nariz ao se verem representados ali por Sarney, Renan Calheiros, Wellington Salgado, Collor e Paulo Duque, no fundo no fundo, essas figuras horripilantes são as que refletem mesmo o gosto popular, aquele que emerge da lama entre danças da garrafa, programas de auditório, humorísticos baratos, comédias românticas, revistas de fofoca, reality shows, transmissões pela TV de cultos evangélicos e exorcismos, rodeios, festas country e todas as porcarias mais. Essa, infelizmente, é a cara do povo brasileiro!
Escrito por Marcelinho às 21h33
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COMEMORAÇÃO
Próximo aos três anos, mais de 30 mil acessos 
No próximo 1º de agosto o Tijoloblog completa três anos de atividades. Nesta terça-feira (21), a alguns dias da data comemorativa, o blog passou dos 30 mil acessos. Eu não analiso este número isoladamente. Alguns blogs recebem em um único dia muito mais acessos do que os meus 30 mil no triênio. Levando-se em conta que sou um ilustre desconhecido, que o blog não possui nenhuma publicidade e qualquer fim lucrativo e que os únicos recursos usados para a divulgação praticamente vêm do boca a boca – real ou virtual – , considero a quantidade bem representativa. Tudo surgiu numa tarde no meu trabalho, em 2006. Os blogs começavam já despontavam como excelente veículo para divulgação de idéias e estavam inclusive sendo adotados profissionalmente. Hoje os jornalistas de qualquer veículo de grande porte têm seus blogs. Empresas usam esse veículo para divulgação de seus produtos e para, por meio dos comentários, estabelecer um canal de relacionamento com seus clientes. Na época, eu não estava atento ao fenômeno. Foi Kenia Ribeiro, que trabalhava comigo, quem me sugeriu fazer um blog. De cara me encantei com a idéia e comecei a escrever de forma compulsiva, principalmente sobre música. Trabalhei durante seis anos com caderno de cultura aqui em Brasília e estava com saudades de tratar do assunto, já que no trabalho os temas que escrevo são completamente diferentes. O que mais me delicia nesse universo blogueiro é a liberdade de poder dissertar – claro, com responsabilidade – sobre o que me der na telha. Música, cinema e artes em geral constituem meus assuntos favoritos, mas sempre dá para bolar uma crônica ou publicar um conto. Fascinou-me ainda como este espaço expandiu seu público. De início, divulguei apenas para os amigos. Com o tempo, pessoas que nem conhecia passaram a visitar o Tijoloblog. Vieram por indicação de outros, ou porque viram indicado em outros blogs. 
Houve até gente que veio me falar que conheceu pesquisando pela web. Claro, também fiz algumas ações para divulgar. Coloquei o endereço eletrônico em cartões de visita, na orelha do meu livro, Não Abra Contos de Terror, e anuncio em postagens via Twitter, Facebook e Orkut. Uma boa surpresa veio no ano passado, quando o Tijoloblog ficou indicado em uma lista do Uol de blogs recomendados. Enfim, tem sido um prazer escrever por aqui ao longo destes três anos, nem sempre com a freqüência que gostaria. Tento postar ao menos um texto por semana. De vez em quando, fico um pouco mais de tempo sem fazer isso, por falta de oportunidade mesmo. Entre os temas mais variados, houve aqui espaço para boas e más notícias. Comentei shows, como o do Franz Ferdinand, em São Paulo, e o do Iron Maiden, em Brasília, este ano. Falei de viagens, de exposições e tantas outras coisas. Houve momentos tristes, como os comentários sobre as mortes de figuras como Glenn Ford, James Brown, Ron Asheton, Rick Wright, Isaac Hayes e, mais recentemente, Michael Jackson e Farrah Fawcett. Mais uma vez agradeço a todos que dedicam seu tempo a leituras dos textos aqui publicados. Um abraço para amigos blogueiros como o Bruno do Euovo e Fernando Brasil, do João Lêndea, que também apostam nessa liberdade de criação que a blogosfera nos oferece. Um abraço para todo mundo e a gente se fala por aí – no mundo virtual ou real. Valeu!!!
Escrito por Marcelinho às 20h05
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LITERATURA
Um francês nos submundos da América
 Michel Leydier, autor de Noires Américaines Noires Américaines – literalmente negras americanas, mas no qual caberia o título de Histórias Noir Americanas – pode sugerir ao leitor que ao adentrar neste livro de contos do francês nascido no Marrocos Michel Leydier se irá encontrar uma série de relatos de mistério no estilo clássico noir. Embora mergulhe no submundo e utilize elementos policiais em suas narrativas, como crimes violentos, exploração do sexo e uso de drogas, este autor contemporâneo apenas se vale desses ambientes como cenário para a amargura, o sofrimento, a frustração e a desilusão entre outros sentimentos que obscurecem nossa existência. Em Noires Américaines, em meio a tipos como seguidores da Ku Klux Klan, junkies e prostitutas, não há espaço para finais felizes e nem lugar para esperança. Encontra-se, no máximo, alguma redenção. Michel constrói as suas histórias em metrópoles como Nova York e Los Angeles ou em pequenas cidades interioranas. Chamou-me atenção Partie de Chasse en Alabama (Caçada no Alabama), em que dois sujeitos racistas resolvem reviver o passado brutal em que saíam perseguindo e matando negros. Assassinam um criminoso foragido e, ao invés do episódio ser investigado como um crime hediondo, a polícia conclui que se tratou de um acerto de contas. Também gostei muito de Watermelon Man, sobre Jimmy Brown, um saxofonista de jazz que se chafurda na lama pelo vício na heroína. Enquanto sua banda o espera para uma gig, ele se envolve em uma pendenga com um traficante por conta de dívidas. Jimmy precisa do endiabrado pó marrom para tocar e o trafica quer seu sax como forma de quitação dos débitos. A inspiração para esse conto vinda de gente como Charlie Parker e Chet Baker é mais do que óbvia. Só para falar de mais uma história – afinal são muitas – cito Derrière la Porte (Atrás da Porta), de atmosfera surreal, que me lembrou Paul Auster. Um homem vive com sua mulher em uma casa no campo. Certo dia, acolhe um estranho que chega montado em um cavalo ferido. Dá abrigo ao visitante e trata do seu animal. Os meses vão e o homem permanece na casa, para desespero da esposa do dono, que sempre insiste em mandar o estranho embora. Num dado momento, o visitante termina se trancando em um quarto, isolando-se dos proprietários da residência. A mulher resolve entrar no local para intimar o estranho e neste ponto o conto passa por uma revolução. A esposa se encanta com o homem e resolve ficar dentro do quarto com ele para sempre, largando o marido do lado de fora. Michel Leydier escreve tudo isso com uma linguagem envolvente e acessível, bastante pop. Todos os seus contos começam com letras de roqueiros, que dão o mote para o que estar por vir. Entre os citados aparecem Neil Young, Lou Reed, Tom Waits, Frank Zappa e até Michael Jackson. Leydier é autor de contos, romances, roteiros para a TV e biografias como as dos cantores Johnny Halliday e Jacques Dutronc. Merece a atenção de quem se interessa por uma literatura instigante e surpreendente, cheia de momentos impactantes.
Escrito por Marcelinho às 08h51
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PROBLEMAS
PEÇO DESCULPAS AOS LEITORES DESTE BLOG PELO TAMANHO DAS LETRAS, MAS ESTÁ HAVENDO ALGUM ERRO DE CONFIGURAÇÃO DEIXANDO O FORMATO DA PÁGINA ESTRANHO E RUIM PARA LEITURA. ESPERO QUE ISTO SE RESOLVA LOGO. UM ABRAÇO A TODOS.
Escrito por Marcelinho às 21h42
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PROPAGANDA ENGANOSA
Ramones na ativa? Claro que não Reprodução 
Ramones ao vivo: só se for na próxima encarnação O descaramento de certos produtores e a cumplicidade de alguns veículos da mídia com algumas armações nos deixam estarrecidos. Neste sábado, CJ Ramone, ex-baixista dos Ramones, se apresenta aqui em Brasília com sua banda. O que causa asco é ver que anunciam sem a menor cerimônia que se trata de um show do extinto grupo nova-iorquino, um dos mais importantes da história do punk e do rock’n’roll. Vi um cartaz que aparece em letras enormes onde se lê “Ramones em Brasília”, e em um texto bem menor a explicação de que se trata de CJ com outros músicos. Provavelmente o repertório do show deve se basear em clássicos dos Ramones e o fato de o projeto contar com um ex-integrante constitui a deixa para os mal intencionados mentirem na publicidade. Quem conhece bem os Ramones sabe que uma performance do grupo seria impossível, dado que o vocalista Joey, o guitarrista Johnny e o baixista Dee Dee já morreram. Talvez só os que vão pela farra, como esses playboys, e desconhecem o mínimo da história do rock se deixem enganar. Embora tenha atuado com competência nos Ramones como baixista, CJ sequer fez parte da formação original do quarteto de New York. Entrou nos anos 90 para substituir o lendário Dee Dee. O único fundador dos Ramones vivo é Tommy Ramone, hoje um senhor de 57 anos, careca e de barba branca, que toca bandolim num grupo de country e folk chamado Uncle Monk. Mesmo que, em uma hipótese para lá de absurda, ele se achasse no direito de usar o nome de seu antigo grupo, jamais teríamos os Ramones sem pelo menos Joey e Johnny, núcleo da banda em seus 22 anos de atividade. Acho até que CJ nem sabe dessa propaganda enganosa e penso que ele não gostaria de ter seu nome associado a isso. Nem conheço o som do seu grupo. De qualquer forma, só por uma mentira desse quilate, já nem me animo a ver. Boa sorte aos que forem.
Escrito por Marcelinho às 22h56
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MÚSICA E POESIA
Quando a música realmente é arte  Leonard Cohen, um dos mais importantes artistas de todos os tempos Compositor, cantor, guitarrista, novelista, poeta. Letras e sons foram fundamentalmente as matérias-primas para que o canadense Leonard Cohen criasse uma das obras mais importantes da música popular e da literatura ocidental. Dono de voz grave e tendo experimentado com os mais diversos estilos, do folk, passando pelo fusion e o soul, à música eletrônica, produziu crônicas que abordam com profundidade temas como o amor, a solidão, a dualidade entre estes sentimentos, religiosidade, guerras e a liberdade existencial. Leonard Cohen, como os Beatles, é daqueles que realmente conferem à música o status de arte. Leonard nasceu no dia 21 de setembro de 1934, em Montreal, na província canadense francófona de Quebec. Judeu, Cohen era filho de mãe lituana e pai de origem polonesa. A formação judaica se tornaria uma influência em suas canções, repletas de citações bíblicas. Leonard Cohen perdeu o pai aos nove anos de idade. Na adolescência, iniciou-se nos estudos da poesia e no aprendizado do violão, elementos cruciais para o artista que se desenvolveria nas décadas seguintes. Em 1956, sob influência de escritores como Walt Whitman, Henry Miller e Yeats, lançou-se na carreira literária com Let us compare mythologies. Ele prossegue na literatura até hoje. 
Já nos anos 50 Leonard Cohen participava de grupos folk como o Buckskin Boys. Foi em 1967 que definitivamente o trabalho na música decolou, com o primeiro disco, Songs of Leonard Cohen. Embora não fosse um hit, repercutiu nos meios folk e virou Cult na Inglaterra. Arrisco dizer que Songs of Leonard Cohen está entre os cinco melhores discos de música popular – aqui não cabe o rótulo música pop – da história. A serena Suzanne abre o álbum, que é perfeito do começo ao fim. A voz barítona do trovador Cohen conta cativantes histórias como em Master Song, So Long Marianne, Sisters of Mercy, Stories of the Street e One of Us Cannot Be Wrong. Do ponto de vista instrumental, as gravações, um marco na folk music, são riquíssimas, tendo como base o próprio violão de Cohen, acrescido com paisagens criadas por instrumentação de cordas e sopros. Esta é uma daquelas obras perfeitas, para se ouvir a vida inteira, a qualquer hora do dia ou da noite, na felicidade ou na melancolia. Leonard Cohen gravou vários discos. Cada um merece uma análise, o que não farei aqui. Quase todos são maravilhosos. Cometerei a gravíssima falta de comentar apenas alguns. Songs of Love and Hate, de 1969, foi gravado em Londres. A voz de Cohen parece ter ficado ainda mais grave neste álbum e os climas, mais obscuros, em canções como Dress Rehearsal Rag e Famous Blue Raincoat. Em 1977, o artista canadense surpreendeu ao lançar Death of Ladie’s Man, produzido por Phil Spector. O álbum, mais pop que os anteriores, era bastante influenciado pelo soul e a sonoridade chega a lembrar os trabalhos de John Lennon produzidos por Spector. O próprio Cohen chegou a chamar Death of Ladie's Man de grotesco. As gravações cercaram-se de mistério e o canadense acusou Phil de agredi-lo com um soco. Nos próximos anos, a voz do cantor chegou à frequência de baixo. Tornou-se lendário o fato de que ele fumava várias carteiras de cigarro por dia para deixar a voz tão grave, em um processo que pode-se chamar de marlborização. 
Onze anos depois, Leonard Cohen gravou outro trabalho que pode ser considerado um marco em sua carreira: I’m Your Man. Nele, misturam-se de maneira pictórica elementos sonoros como technopop e música de cabaré, sempre ilustrados com a voz sombria do artista. Soaria grotesco com outros, mas Leonard nunca fez nada gratuitamente e embala esses elementos com elegância e os dignifica ainda mais com sua poesia. Basta ouvir First We Take Manhattan, Jazz Police e a belíssima I Can’t Forget, temas de atmosfera cinematográfica, para compreender isso. 
Cohen influenciou nomes tão diferentes quanto Lou Reed, Tom Waits e Nick Cave
Para fechar o texto, em 2006, Lian Lunson dirigiu Leonard Cohen: I’m Your Man, um documentário que alterna depoimentos, imagens de arquivo e um show na Austrália em homenagem ao artista canadense. Só para se ter uma idéia da vasta influência de Cohen, no filme aparecem nomes como Jarvis Cocker (ex-Pulp), Nick Cave e o U2. Aliás, a banda irlandesa toca Tower of Song, com Leonard, no melhor momento do filme, e Bono, emocionado, dá um depoimento, em que diz que Leonard Cohen é um dos maiores da música. Pode ter certeza que sim.
Escrito por Marcelinho às 21h53
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BRASIL
O bigode e o atraso Os recentes escândalos de nepotismo e abuso da máquina pública protagonizados pelo presidente do Senado, José Sarney, mostram o quanto o coronelismo ainda maltrata o Brasil. A exemplo de Renan Calheiros, por mais que seu nome se veja envolvido em negócios bastante obscuros, o velho Ribamar se agarra como pode ao cargo. O motivo é simples: sabe que se permanecer na presidência da Casa poderá, como Calheiros, controlar os processos investigativos conforme sua conveniência e livrar sua cara. Estes dias, Sarney fugiu da imprensa como o Diabo da cruz, para não ter que dar explicações aos jornalistas. Também mirando no correligionário Renan, que blindou a própria sessão de cassação para deixar os colegas mais seguros para lhe salvar o pescoço, Sarney cercou-se de um exército de brutamontes. Um repórter do CQC chegou a ser agredido e os leões de chácara de Ribamar avisaram aos fotógrafos que nem se engraçassem em chegar muito perto. Essa é mais uma faceta do coronelismo que nos momentos de desespero o presidente do Senado deixar aflorar, ainda que goste de posar de bom moço, intelectual, articulista e poeta. Poupe-nos, por favor. Não canso de me recordar do genial Paulo Francis, que descia o sarrafo impiedosamente em Sarney apontando-o apenas como o endinheirado provinciano autor de Os Marimbondos de Fogo. Aff!! Achei ótimo um comentário que escutei dia desses na CBN de Lúcia Hipólito, em que ela acusou Sarney de privatizar o Senado, como fez com o governo do Maranhão. Privatizar porque o que deveria ser bem comum passa para o usufruto de espertalhões, que nomeiam parentes e amigos no Legislativo. No final, Lúcia perguntou por que Sarney, um homem tão rico, não usou as próprias empresas para empregar a parentada e os amigos. Simples: melhor fazer isso com o dinheiro público. Lembremos também que o Maranhão, estado controlado há décadas pela oligarquia de seu José, apresenta vergonhosos indicadores sociais como o elevado grau de trabalho infantil. O Maranhão ostenta o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País não à toa. 
Mas por que estou tendo o desprazer de falar sobre este senhor? Tentando escapar um pouco de tantas notícias ruins me dedicava à leitura de O Coronel de Macambira, texto de um espetáculo de bumba-meu-boi escrito há algumas décadas pelo pernambucano Joaquim Cardozo. O tal coronel é um homem rico que controla terras no interior do Nordeste. Alguma semelhança com figuras reais? Sim e não é mera coincidência. Cardozo tece ali crítica ferrenha a um sistema social que massacra os mais humildes em benefício de alguns poucos e que até hoje insiste em se perpetuar. O coronelismo permeia a obra de Jorge Amado e se manifesta em Incidente em Antares, do gaúcho Érico Veríssimo. Tantos autores souberam traduzir com primor para as letras o que os Ribamares fazem com o Brasil há séculos. Se poderia haver herança boa em meio a tantas mazelas, ela está nestas críticas construídas pelos mestres da Literatura Brasileira. A arte é uma das coisas que ainda nos faz orgulhosos de ter nascido nestas terras, apesar de tanta notícia ruim.
Escrito por Marcelinho às 22h44
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